Descobri que nossa história já foi contada, é reedição de uma antiga.Descobri igualmente que, mais uma vez, tomei o papel de coadjuvante no meu próprio roteiro.
E sim, mais uma vez sou eu a escrever o roteiro da nossa história, da sua história.
Acontece que tive a oportunidade de mudá-lo, mas não o fiz.
O papel principal, do mocinho, ou melhor, do anti-herói, agora não é mais dele, daquele, mas seu.
O papel da mocinha continua sem ser meu, até porque me dei conta de que não combino com ele, não fui feita para tal. Minha atuação, nesta nova história igual, é do mesmo modo como na anterior: por trás dos panos.
Pois enquanto escrevo rapidamente o roteiro, marco o passo, o compasso, e decido pela sua vida, atuo na encenação.
Como coadjuvante participo novamente, e mais uma vez certa de que serei eu a de maior destaque, serei eu a que não será lembrada.
Eu, atriz e escritora, concomitantemente.
Eu, sensível e senciente, confusa.
Eu, manipuladora e manipulável... pelo anti-herói.
Eu, eu mesma, só, a olhar, de expectadora, minha própria obra, belíssima.
Criadora de sentimentos e de sensações.
Eu não valho nada.
E, justamente por nada valer, por saber da minha miserabilidade própria, afasto-me novamente daquilo e daqueles que, até alguns dias atrás, faziam-me sorrir.
As personagens da minha história novamente serão ingratas.
Escreverei toda a trama, a colocarei em prática, e eles não se lembrarão.
Talvez porque não consigam vislumbrar que são apenas parte de uma narrativa falsa, onde os sentimentos serão falsos; talvez porque não se dêem conta de como um roteirista trabalha; talvez porque eu simplesmente não digo.
Lendo estas palavras todas, alguém poderia supor que eu me considero superior às minhas personagens.
Não é o caso. A prova máxima é que eu também sou, em essência, uma personagem de minha trama, uma coadjuvante.
Sorri para a mocinha, protagonista.
Sorri para o mocinho, protagonista e anti-herói.
Sorri para si mesma, coadjuvante miserável.
Fecham-se as cortinas.
3 comentários:
Na vida tudo é cíclico.Por vezes nos sentimos quase que onipotentes,em horas mais lúcidas,nos damos conta de nossa própria miserabilidade e de como somos todos carentes.Acho que foi Walt Whitman quem escreveu que:"Devemos enterrar os cadáveres de nosso passado,para que o mau cheiro não nos acompanhe a vida inteira"Assim,como já diziam os nossos avós,extrair de cada lição de vida sempre o melhor,para não repetir no futuro,o traçado de enredos que,de antemão,já sabemos fracassados.
Bjosss...Nathália.
Teus comentários me fazem muito bem, obrigada!
É bom tomar o rumo de sua própria vida. Boa sorte...
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