quinta-feira, 23 de agosto de 2007

De repente 43!


São tantas as chaves... Abriu! Entra porta adentro, tropeça em alguma coisa... Tateia a parede a procura do interruptor. Acha-o. Que se faça a luz!
Havia tropeçado nos tênis jogados na cozinha... lembrar de guardá-los!
Abre a geladeira. Olha seu interior calmamente. Não pega nada. Fecha a porta.
Joga a bolsa no sofá, as chaves na escrivaninha.
Vai em direção ao quarto, abre a gaveta. Passa um minuto inteiro olhando as meias, calcinhas e sutiãs... está uma bagunça! Lembrar de arrumá-la!
Esquecera o que tinha de fazer. Abre outra gaveta. Ah, sim! Deveria ter pegado calcinha e sutiã!
Calcinha, sutiã, camisola.. falta mais alguma coisa?
Entra no banheiro, despe-se aos poucos. Fita no espelho o corpo nu. Engordara... Culpa dos doces comidos nos últimos dias... A semana fora estressante. Problemas no trabalho.
Estava resolvido: faria uma dieta! Começaria naquele dia mesmo!
Entra no chuveiro. Sente a água molhar-lhe os cabelos, o frio na espádua.
Escolha o shampoo. “Aplique no cabelo molhado massageando suavemente. Depois, enxágüe com água.”
Sorriu. Ler o rótulo de shampoo no banho... tinha pego essa mania na adolescência.
Automaticamente leva a mão ao rosto, percorre todos os traços. A pele já não está tão firme. As espinhas deram lugar às rugas. Os olhos também não eram os mesmos. Antes tinham um brilho... Inocência, esperança, sonhos!
Desliga o chuveiro, ainda com corpo e cabelos ensaboados.
Realmente... a imagem que o espelho reflete não é a mesma de alguns anos atrás. Terá sido o espelho? Sorri... provavelmente não Ao menos o sorriso mantinha-se conservado. Os mesmos dentes, tão brancos e fortes como antes. Estes ainda demorariam a envelhecer, não ficariam flácidos como o resto do corpo...
Volta ao banho, enxágua-se. Torce o cabelo... Droga! Esqueceu a toalha!
Sai molhando o chão todo, pega uma toalha, seca-se. Lembra da mãe... “Não saia do banheiro molhada! Olha o vento! Vai acabar pegando uma pneumonia!”
Roupa colocada, senta-se no sofá e liga a televisão.
Não, não... Uhm... também não... Finalmente escolhe um canal. O filme tinha acabado de começar... qual seria? “De repente 30!”.
Interessante... já havia visto aquele filme... tinha 15, talvez 16 anos na época... Fora estranho imaginar-se mais velha naquela idade.... O máximo de abstração que conseguira fora até chegar aos 20 anos. Ai, ai... O que teria dito aquela adolescente se a visse hoje, aos 43 anos? Levaria um susto? Certamente...
O tempo passou. Sim, sim..,. e como!
Depois de duas horas o filme acaba, o chocolate também.
Seus olhos fechados... O devaneio continua. Absorta em suas próprias memórias. “De repente 43!”
Levaria um susto? Certamente...


Nathália Jaimovich.
Dia 23 de agosto de 2007

Diálogo

Um homem entra na sala, e dirigi-se até a moça atrás do balcão. Fica parado em frente à ela.
* Fale.
# Posso?
* Claro. Por que não poderia?
# Tem uma placa na parece dizendo “Faça silêncio”.
* Não, não... Pode falar. O que queres?
# Eu vim só pra entregar uns “papel”.
* Papéis.
# Não. É só um papel mesmo.
* Então por que usastes o plural?
# Porque a senhora também usou.
* Eu? Quando?# Saiu falando tudo em mais de um! “queres”, “usastes”...
* É porque concorda com o pronome pessoal do caso reto, “tu”.
# Ih, já vi.. Eu não conheço esse tal de pronome, nem o pessoal do caso reto, com curvas ou sei lá!
* Uhm.. problemas com o léxico.
# Quem é léxico? Trabalha aqui também?
* Ah, esqueça! O que tens para me entregar?
# Um baixo assinado.
* Um o que?
# Ah, eu já disse! Um papel com o nome de todo o mundo lá da minha rua. Disseram que se geral “escreve” os “nome” aqui vocês arrumam as “lâmpada” da rua.
* Escrevesse. É preciso flexionar...O homem se deita no chão.
# Assim?
* Levante-se, homem! Está assim por que?
# Ai, a senhora é muito confusa! Manda “flexionar” e depois reclama!
* Mas não me referia a isso quando falei “flexionar”!
# Olha, eu já fiz academia e o “pessoal trailer” me mandava fazer flexão sempre.
* Esqueça!
# Ce vai aceitar o papel ou não?
* “Ce” ? “você” ? “voismece” ? “Vossa mercê” ?
# Mercedes? Seu nome é Mercedes?
* Não, “vossa mercê” é uma maneira de se chamar alguém...
# Tipo “cara” ?
* O papel, por favor...
# Ops, mals aí! Toma.
* Merci.
# Fala.
* Falar o que?
# Ce falou “mercê”, né? Tava me chamando?
* Falei “merci”, não “mercê”. Merci é obrigada em francês.
# Mas eu nem fiz nada!
* Eu não disse que fez!
# Você falou que ta obrigada! Eu num te obriguei! Só pedi!
* Pois bem... esqueça! Pode ir, vou cuidar do seu caso.
# Poxa, valeu!
O homem sai da sala, a mulher põe-se a gargalhar.Entra na sala uma senhora, para na sua frente, fica em silêncio.
*Boa tarde. Posso ajudar?
@ Posso falar?
* Óbvio!
@ Ah, é que tem uma placa aí do lado pedindo silêncio...
* Ai, não... Lá vamos nós outra vez...

Nathália Jaimovich.
Dia 23 de agosto de 2007

>>Eu e minha tentativa frustrada de fazer algo engraçado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Eu em alguns anos...?


7 a.m.
O despertador toca, e a mão vai ao seu encontro a fim de fazê-lo parar de apitar.Estava com sono. Passara boa parte da madrugada em claro analisando documentos “muito importantes”.
Abriu os olhos, saiu das cobertas. Estava fria aquela manhã. Procura os chinelos... acha apenas um pé. Vai em direção ao banheiro. Fita o espelho... dormira com maquiagem... ao menos não esqueceu de tirar as lentes de contato. Escova os dentes, encara o banho quente (porém ainda frio).
Prepara rapidamente o café, pega as coisas e sai.Anda rápido com medo de perder o metrô. A audiência começará em duas horas. Senta-se no banco, abre a pasta, demora-se um pouco nos papéis. Respira fundo. Está tudo em ordem.
9 a.m.
O frio na barriga. Ainda sente como se fosse a 1ª vez que pisa em uma sala de tribunal. Ri do próprio nervoso. Quando mais nova acreditava que seu nervosismo passaria após o vestibular. Faz mais de treze anos... Tantas coisas aconteceram nesse período... superara o vestibular!
Bem verdade que aquela foi uma fase bem conturbada. Realmente depois as coisas ficaram menos complicadas. Os estágios, as aulas da universidade, os cursos, o trabalho voluntário!
Agora era mais fácil. Sentir-se confortável era imprescindível. E se sentia.
A vida pessoal estava tranqüila. Seu atual namorado era inteligente e divertido, fazia-a sorrir. Perfeito.
No trabalho as coisas nunca estavam tranqüilas. Estava tudo ótimo, claro. Trabalhar com Direito, se especializar em meio ambiente... Cada trabalho era mágico!
A mudança para a Inglaterra... Fazer amigos... difícil missão! Fora bem sucedida. Vida consolidada.
Fecha os olhos lentamente, mantém-os fechados por alguns momentos. Sente o ar londrino em seus pulmões. Está pronta! Que o caso comece!

Nathália Jaimovich.
Dia 20 de agosto de 2007

A morte do poeta

Não quero perder nem um só minuto.
Não quando há tanto a ser feito.
O corpo se cansa antes da mente, mas a mente a muito não está presente.
Dos vãos escoam pensamentos, que reprimo com medo de verbalizar.
Mas a voz, instrumento poderoso, a muito resolveu se aposentar.
Evito os tremores involuntários, não me mexo com medo de expressar.
Mas o corpo que tanto me preocupa, há tempos parou de funcionar.
Fujo das formatações perigosas, receio que virem versinhos intermináveis.
Mas a mão do poeta está morta, assim como a mente, assim como a voz, assim como o corpo, assim como o poeta.

Nathália Jaimovich.
Dia 20 de agosto de 2007

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O poeta que não sabe mais rimar

Era para ser uma poesia, mas duvido que consiga sequer uma rima...
O poeta está destreinado... Não é como andar de bicicleta... isso acho que ninguém esquece... Acho que escrever é como comer chocolate... se não for sempre perde o gosto. Eu não sei qual o gosto do chocolate... não posso reavivar na memória. Sei que é bom, que quando como fico nas nuvens... Era assim com a poesia... Não lembro o que é... só sei que enquanto as escrevia, ou mesmo após ver uma terminada, o prazer era indescritível . Muitas vezes não só saiam rimas do papel, mas também havia as lágrimas, quase sempre presentes... E como chorar era bom! Aquelas lágrimas não eram desgostosas, ao contrário! Significavam que uma barreira havia sido quebrada, um obstáculo ultrapassado.
Eu jogava os versos sem pena, como as ondas batendo nas rochas, chegando ao quebra-mar... Mas como é belo o espetáculo feroz das ondas... tão belo quanto as palavras sobrepostas.
ABAB, ABBA, paradoxos, antíteses, sinônimos... Uma verdadeira aula de gramática! E a poesia vai tomando corpo... mas tão frágil que ao simples uso da borracha não se vê. Mas as marcas no papel ainda existem, são os sentimentos querendo ser descrevidos... Não suportam o esquecimento! Palavras teimosas! Rimas andarilhas... fazem tudo para permanecer...
Ora, ora, então por que insistem em se esconder?! O texto torna-se longo... Quando irão, enfim, aparecer?...

Nathália Jaimovich.
Dia 16 de agosto de 2007.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Não se esqueça de chorar


Não chore pelo orgulho ferido, pela maquiagem que não esconde, pela tristeza aparente.
Não chore por motivos desconhecidos, pela máscara que não cai, pela tristeza que camufla.
Não chore pelos sonhos perdidos, os obstáculos encontrados e pelo amor errante.
Não chore por aqueles que não sabem que você sofre, e como sofre!
Não chore por palavras não ditas, carinhos não aplicados e beijos que só acontecem em sonho.
Não chore por nada, não chore por tudo, não se esqueça de chorar.

Nathália Jaimovich.
Dia 8 de agosto de 2007

Promessas


Prometo não franzir o cenho quando olhar para outra mulher.
Prometo não sentir ciúmes quando me disser que ama outra.
Prometo fingir que é fácil não ser amada por quem se ama.
Prometo não contar aos outros que te amo só para que possa ficar livremente com outras.
Prometo não chorar na sua frente, nem nunca fazer com que sinta mal.
Prometo ser o que quiserdes que eu seja.
Prometo sorrir se quiser, beijar se quiser, ser eu mesma se quiser.
Prometo nunca descumprir o que prometer.
Agora, por favor... Prometa-me que ao menos quando me beijar, ao menos nesse vão momento estará pensando em mim, não nela. Pois o beijo é o encontro mais íntimo entre duas pessoas, e quero que ao menos nele você seja real e inteiramente meu.

Nathália Jaimovich.
Dia 8 de agosto de 2007