quarta-feira, 29 de junho de 2011

De repente dei-me conta de que o rosto (às ruas) era meu


Reencontrei minhas alegrias de viver.
Reencontrei também minhas fraquezas, meus medos, minhas esperanças de ser... o que quero ser?
Reencontrei meus ideais.
Reencontrei minhas lágrimas, meus sorrisos, meu mundo particular.
Reencontrei meu mundo público, meus amigos, meus desconhecidos que entram na minha vida, dão sua contribuição e depois vão (ou eu ou eles, mas sempre vamos embora)
Reencontrei o grito de guerra, a identidade perdida, e criei identidades novas, gritei por novas guerras, reivindicando paz, e perdi a voz.
Perdi a voz mas reencontrei o amor.
O amor à luta, o amor às ruas, aos que não têm idéias e aos que têm idéias demais.
Nessas últimas semanas me recuperei de mim.
"Quem feriu meu coração fui eu, mais ninguém.
Quem feriu meu coração foi você também"
Mas quem era "você"?
Não era quem acreditei que fosse, não era nem quem ele acreditou que era.
"Você" era uma potência que nunca será em realidade.
Eu não quero potências, quero essências, quero a práxis.
Nessas semanas vi que a face que nunca vou esquecer é a minha, é a sua, é a de quem eu eternizar em mim.

Fui ÀS RUAS, jamais voltarei.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O pretérito imperfeito

Encontrei-me ontem com meu pretérito perfeito.
Conversamos sobre o seu pretérito imperfeito que ele acha perfeito.
Dali me dei conta de que tenho muita sorte.
Aprendo com cada experiência, por mais rápida e menos significativa que seja.
Vivo sem medo meu presente, e passo sem medo pelo passado.
Meu passado é cheio de pretéritos que não me encantam mais.
E?
E acontece que, para minha surpresa, não sou regra, mas exceção.
Ontem fiquei sabendo que é comum que as pessoas não saibam lidar com o passado. Pior, que não saibam colocar pessoas e realidades no passado.
Foi estranho. Não a conversa, mas o cansaço. Fiquei muito cansada, impaciente pr'aquilo tudo.
As pessoas fazem tempestades em xícaras de café.
As pessoas vivem do passado, nostálgicas. Colocam uma experiência passada como o ápice de suas vidas.
Sempre vi a experiência passada como apenas isto mesmo: uma experiência, que me orienta e me enriquece pro presente, pro futuro.
Tenho muito claramente que "what comes is better than what came before" , simplesmente porque se o passado fosse melhor do que o futuro, ele não seria passado.
Não sou nostálgica. O melhor momento da minha vida está sempre por vir, e depois por ir, para que algo ainda melhor aconteça.

Sugiro o filme Meia Noite em Paris, do Woody Allen.

terça-feira, 7 de junho de 2011

L'arbre de vie

Nunca havia antes experimentado drogas.
Nem escrito um livro, tido filhos ou plantado uma árvore.
Não era, assim, um ser humano realizado.
Também nunca tinha amado, mas como quase ninguém ama, não levaria em conta como realização.
Estava se encontrando em si. E, por ser complicada, perdia-se com frequência.
Decidida, resolveu que mudaria sua vida.
Comprou um abacate, comeu-o, e o caroço colocou num potinho com água e algodão. Escolheu o abacate porque nunca gostou de feijão.
Comprou também um caderninho de anotação. Escrevia ali suas idéias para o livro. Não tinha idéia sobre o que escreveria, mas achou bom começar logo.
Os filhos tomou por bem deixar por último, teria que fazer um processo seletivo, escolher os melhores genes...
Passou, então, para o penúltimo ponto: usar alguma droga.
Escolheu a maconha. Era mais leve, não a viciaria logo, e também não parecia ser cara, porque tanta gente usa...
Conseguiu um cigarro. Comprou-o pronto mesmo, visto que não saberia manusear a erva (trabalhos manuais nunca foram o seu forte).
Comprou-o com uma menina, devia ter lá seus quinze anos. Franzina, trazia nos olhos negros o reflexo da marginalização da sua cor. Os cabelos pretos estavam presos, mas rebeldes que eram, fugiam, não aceitavam a herança histórica da escravidão.
Quando lhe deu o dinheiro, sorriu, e viu que faltavam ali dois dentes.
Por um momento sentiu pena daquele sorriso. Mas logo afastou esse sentimento, dando-se conta de que aquela adolescente miserável não teria na vida muitos motivos para sorrir.
Sentaram as duas na pedra do Arpoador.
Olhava o mar e nele buscava inspiração para a escrita.
Depois de algumas tragadas cogitou escrever sobre... esquecera.
Foi quando um policial parou em sua frente, chamando-a de vagabunda, maconheira.
Era negro, alto, mas seus olhos pretos acreditavam ser azuis.
Mandou-a ir embora, ameaçou levá-la para a Delegacia. Levantou-se, ia pegar a mão da menina e levá-la consigo, quando o policial impediu. A traficante ia pra cadeia, que é lugar de criminoso.
- Mas ela é só uma adolescente!
- É menor infratora, criminosa, tem que aprender o certo agora, então!
- Ela não tem quase nada de maconha, não é traficante nada!
- Quem diz se é ou se não é sou eu, e essa aqui tava vendendo. Ou você acha que acredito que uma desgraçada dessas ia estar do lado de uma patricinha?
Era pouca maconha, pouca mesmo, mas como discutir com aquele homem-deus?
Desceu a pedra. Não foi embora. Ficou esperando que os dois descessem. Sentia-se culpada pela garota.
O policial desceu só. Ela subiu correndo.
Estava a franzina deitada, chorando. Abraçou-a.
Não falaram nada. Há horas em que a comunicação mais profunda se dá no silêncio.
Surgiu ai uma empatia recíproca. Eram duas miseráveis, o que as distinguia era o uso ou não da metáfora espiritual no termo.
Encontravam-se com alguma frequência, nunca falavam muito.
A barriga crescia.
- Foi ele?
- Foi.
- E agora?
- Não sei.
- Quer ajuda?
- Não.
Era uma menina. Fruto da violência social.
A outra menina,  a de quinze anos, não resistiu.
Pegou a criança nos braços. Contraste de raça. Mas aquela da pele negra teria vida de branca.
Agora tinha uma filha, e a amava.
Faltava apenas o livro.
Pegou o caderninho, e tratou de escrever nele seus últimos meses de vida.
Era realizada.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Hoje o samba saiu, de fita em mão


Talvez seja cedo para escrever sobre isso que nem sei se sinto
Mas como sou daquelas que escreve sobre o que sabe não saber...

Um inexplicável bem estar a invadia quando se aproximava dele.
O sorriso tomava-lhe a face, sorriso de quem não sabe o que quer, mas gosta do que não sabe querer.

Nem sempre você pode conseguir o que quer, mas você pode sempre tentar


Filosofia e Direito me saem com muita naturalidade.
Alguns podem dizer que é natural porque eu sei muito.
Mas suspeito, no meu íntimo, que seja natural porque o que falo é fácil.
A vida é feita de desafios. Se algo não está me desafiando é sinal ruim.
Sei pouco, prova disto é que falo muito.
Quero aprender coisas novas, ver o que nunca vi.
Ler e ter dúvida, e pensar, desenvolver, e só então entender.
Quero aproveitar meu potencial ao máximo.
E me faz feliz descobrir coisas novas, me deparar com outras perspectivas, teorias, assuntos!
Sou uma entusiasta!
Quero o novo, o desconhecido, quero conhecê-lo e mudar completamente de opinião.
Quero poder desconstruir meu raciocínio diariamente, construir e destruir dogmas.
Quero erguer meu castelo cheio de defesas, que cada tijolo seja minha paixão.
Mas faço questão de que o castelo seja de vidro, para que possa ir abaixo.
E quero ficar perdida quando meu castelo ruir, ver meus sonhos se desfazerem em pesadelos.
Quero chorar quando me encontrar desacreditada, e até me desesperar.
Eu não abro mão de viver.
Não tenho medo do problema, ao contrário, quero conhecê-lo e ir à guerra.
Sem medo de cair no meio do percurso. Se eu cair, levanto.
É sabido que nunca chegaremos onde queremos.
Neste caso, nos resta continuar andando, aproveitando o caminho.