Nunca havia antes experimentado drogas.
Nem escrito um livro, tido filhos ou plantado uma árvore.
Não era, assim, um ser humano realizado.
Também nunca tinha amado, mas como quase ninguém ama, não levaria em conta como realização.
Estava se encontrando em si. E, por ser complicada, perdia-se com frequência.
Decidida, resolveu que mudaria sua vida.
Comprou um abacate, comeu-o, e o caroço colocou num potinho com água e algodão. Escolheu o abacate porque nunca gostou de feijão.
Comprou também um caderninho de anotação. Escrevia ali suas idéias para o livro. Não tinha idéia sobre o que escreveria, mas achou bom começar logo.
Os filhos tomou por bem deixar por último, teria que fazer um processo seletivo, escolher os melhores genes...
Passou, então, para o penúltimo ponto: usar alguma droga.
Escolheu a maconha. Era mais leve, não a viciaria logo, e também não parecia ser cara, porque tanta gente usa...
Conseguiu um cigarro. Comprou-o pronto mesmo, visto que não saberia manusear a erva (trabalhos manuais nunca foram o seu forte).
Comprou-o com uma menina, devia ter lá seus quinze anos. Franzina, trazia nos olhos negros o reflexo da marginalização da sua cor. Os cabelos pretos estavam presos, mas rebeldes que eram, fugiam, não aceitavam a herança histórica da escravidão.
Quando lhe deu o dinheiro, sorriu, e viu que faltavam ali dois dentes.
Por um momento sentiu pena daquele sorriso. Mas logo afastou esse sentimento, dando-se conta de que aquela adolescente miserável não teria na vida muitos motivos para sorrir.
Sentaram as duas na pedra do Arpoador.
Olhava o mar e nele buscava inspiração para a escrita.
Depois de algumas tragadas cogitou escrever sobre... esquecera.
Foi quando um policial parou em sua frente, chamando-a de vagabunda, maconheira.
Era negro, alto, mas seus olhos pretos acreditavam ser azuis.
Mandou-a ir embora, ameaçou levá-la para a Delegacia. Levantou-se, ia pegar a mão da menina e levá-la consigo, quando o policial impediu. A traficante ia pra cadeia, que é lugar de criminoso.
- Mas ela é só uma adolescente!
- É menor infratora, criminosa, tem que aprender o certo agora, então!
- Ela não tem quase nada de maconha, não é traficante nada!
- Quem diz se é ou se não é sou eu, e essa aqui tava vendendo. Ou você acha que acredito que uma desgraçada dessas ia estar do lado de uma patricinha?
Era pouca maconha, pouca mesmo, mas como discutir com aquele homem-deus?
Desceu a pedra. Não foi embora. Ficou esperando que os dois descessem. Sentia-se culpada pela garota.
O policial desceu só. Ela subiu correndo.
Estava a franzina deitada, chorando. Abraçou-a.
Não falaram nada. Há horas em que a comunicação mais profunda se dá no silêncio.
Surgiu ai uma empatia recíproca. Eram duas miseráveis, o que as distinguia era o uso ou não da metáfora espiritual no termo.
Encontravam-se com alguma frequência, nunca falavam muito.
A barriga crescia.
- Foi ele?
- Foi.
- E agora?
- Não sei.
- Quer ajuda?
- Não.
Era uma menina. Fruto da violência social.
A outra menina, a de quinze anos, não resistiu.
Pegou a criança nos braços. Contraste de raça. Mas aquela da pele negra teria vida de branca.
Agora tinha uma filha, e a amava.
Faltava apenas o livro.
Pegou o caderninho, e tratou de escrever nele seus últimos meses de vida.
Era realizada.