O presente virou passado, e o passado foi, ontem, presente.
O passado sabia do presente, o presente desconhia o passado.
É o fim do presente. O presente virou passado sem saber.
E, assim como o presente antes desconhecia o passado, agora o presente desconhece a sua condição de passado.
São as voltas do tempo.
Ler ao som de http://www.youtube.com/watch?v=zlNMLwUeoeU
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Crítica ao Passado
Queria falar do presente, queria mesmo, e até acredito que haja algo sobre o presente para ser escrito.
Mas acontece que ainda não esgotei meu passado. Prova disso são as músicas que me tomaram a mente hoje de manhã
"Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia..."
e
"E o passado é uma roupa que não me serve mais..."
Sinto, não sei o porquê, que ando escrevendo mais sobre o passado do que sobre o presente.
Mas como ando vivendo mais o presente, vou falar dele.
"O Passado" é um filme argentino, com Gael Garcia Bernal, que trata da história de um casal que, para todos ao redor, nasceu um para o outro, mas que para Gael poderiam até ter nascido um para o outro, mas não mais deveriam viver um com o outro, ou um para o outro.
Gael deixa, assim, seu passado.
O passado, porém, não deixa Gael.
Gael ignora o passado que o persegue e vai viver seu presente.
O passado não toma seu presente.
Seu presente é viver.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Que Deus salve o meu estômago
"Que Deus salve o meu estômago", foi o que pensou enquanto as lágrimas se apossavam silenciosamente de si.
Era como se acontecesse uma revolução dentro dela mesma, uma revolução feita por ela.
Resolvera, naquela madrugada, passar seu passado a limpo.
Descobriu ela que tinha escrito muitos rascunhos, e que vê-los causava mal estar.
Descobriu ela que seus rascunhos tinham se passado a limpo, mas em outra folha, em uma que não a pertencia, que ela desconhecia.
Descobriu ela que tinha sentido muito, muito menos do que deveria, muito menos do que gostaria.
Arrependeu-se de não ter sofrido mais, de não ter chorado mil lágrimas, de ter apenas alguns soluços.
Arrependeu-se porque se deu conta de que soluços só não trazem soluções.
A solução que encontrou para si foi olhar. Olhava cada ponto de seu passado, cada coisa que a fez mal, que a faz mal, que poderia, algum dia, fazer-lhe mal.
E chorou. Chorou pouco, até, perto do que achou que poderia chorar.
"Que Deus salve meu estômago", pensou ao sentir o embrulho do nervosismo, pois o coração ela mesma salvara há muito.
O coração, pensou ela com tristeza, estava intacto.
"O passado é uma roupa que não me serve mais"
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Eu queria dizer que te amo
E foi olhando para ele ali, em pé, em frente ao nada, que se deu conta de que não mais o conhecia.
Ele era um completo estranho, e tudo que antes ela admirava, agora nada mais lhe dizia.
Era outro. Era outra mente, outros sentimentos, outro mundo.
Outros mundos.
O mundo dela agora o encantava.
E o mundo dele, que antes a encantava, não mais existia.
Ele era outro e queria a vida dela, queria ter amarras como ela, parâmetros como ela.
E a liberdade que ele tinha? Sumira.
Não era só ele outro. Era ela também outra.
Eram dois estranhos que se conheciam há muito tempo.
Eram dois, indiscutivelmente dois. Não seriam um nunca mais.
O tempo passara, o sentimento também.
Naquele instante, não mais a importava ouvi-lo dizer que a amava.
Agora, ao contrário de toda a sua vida, o que ela queria era ouvir, de si mesma, que o amava.
Estava tudo silencioso dentro dela.
Havia acabado.
Agora ela sabia.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Não venha, não vá, não fique...
Não vá, não vá sem me levar - disse no ápice de sua incontrolável paixão.
Não, não vá sem que eu vá junto - decidiu de repente.
Vamos, os dois, passar por tudo isso.
Vamos, os dois, passar por tudo isso.
Vamos chegar... aonde vamos chegar? - afastou suas emoções
Chegaremos ao equilíbrio - concluiu
Equilíbrio é a morte da paixão - proferiu a sentença
Não, não vá - repetiu - sem antes se despedir.
Ler ao som de Regina Spektor - Hero (trilha de 500 days of Summer)
Texto meio sem sentido, dessas coisas que aparecem na mente antes da gente dormir.
"What comes is better than what came before"
E, por saberem que era finito, aproveitaram cada momento.
Por aproveitarem o presente, esqueceram de remoer o passado.
Acabou, como tudo acaba, mas sentiram, como poucos sentem.
Ler ao som de Cat Power - I found a reason
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
"O que é felicidade, meu amor?"
Deitaram no colchão.
Eram oficialmente solteiros.
E, num colchão de solteiro, eram quase um.
Entrelaçou suas mãos na dela.
Entrelaçou suas pernas nas dele.
E sorriram um no outro, um pelo outro, sorriam por dentro.
Os solteiros na cama eram livres.
E, livremente, ali ficavam.
Perto, tão perto um do outro.
E de longe olhavam a cidade.
A cidade não os conhecia.
O quarto era iluminado pelas luzes das casas da cidade, cheias de gente que sonha com a felicidade.
E dali, daquele quarto, vendo a gente que sonhava, eles viviam...
a felicidade.
Eram oficialmente solteiros.
E, num colchão de solteiro, eram quase um.
Entrelaçou suas mãos na dela.
Entrelaçou suas pernas nas dele.
E sorriram um no outro, um pelo outro, sorriam por dentro.
Os solteiros na cama eram livres.
E, livremente, ali ficavam.
Perto, tão perto um do outro.
E de longe olhavam a cidade.
A cidade não os conhecia.
O quarto era iluminado pelas luzes das casas da cidade, cheias de gente que sonha com a felicidade.
E dali, daquele quarto, vendo a gente que sonhava, eles viviam...
a felicidade.
O dono da casa e a dona de casa
Ele tem a chave da porta.
Ela tem a chave da dispensa.
Ele grita com ela.
Ela grita consigo.
Ele faz a bagunça.
Ela faz o almoço.
Ele deita e rola.
Ela enrola a panqueca.
Ele suja.
Ela limpa.
Ele trai.
Ela se retrai.
Ele assiste o canal de esportes.
Ela assiste sua vida passar.
Ele humilha.
Ela chora.
Ele não presta.
Ela se empresta.
Ele dá os tostões.
Ela dá sua dignidade.
Ele fecha a porta de casa e a dona de casa já prepara o jantar.
Ela põe a comida na mesa, os travesseiros na cama e o faz relaxar.
Ele resmunga, coça os olhos, se joga no colchão e se põe a roncar.
Mal viu ele, tão ocupado, o dono da casa, que a sua dona de casa, depois de tanto trabalhar, havia arrumado suas malas.
Ela, dona de casa, sai em silêncio (como sempre viveu) e deixa um bilhete: Eu me demito.
Foi viver sua própria vida. Foi ser dona de si.
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