quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O dono da casa e a dona de casa


Ele tem a chave da porta.
Ela tem a chave da dispensa.
Ele grita com ela.
Ela grita consigo.
Ele faz a bagunça.
Ela faz o almoço.
Ele deita e rola.
Ela enrola a panqueca.
Ele suja.
Ela limpa.
Ele trai.
Ela se retrai.
Ele assiste o canal de esportes.
Ela assiste sua vida passar.
Ele humilha.
Ela chora.
Ele não presta.
Ela se empresta.
Ele dá os tostões.
Ela dá sua dignidade.
Ele fecha a porta de casa e a dona de casa já prepara o jantar.
Ela põe a comida na mesa, os travesseiros na cama e o faz relaxar.
Ele resmunga, coça os olhos, se joga no colchão e se põe a roncar.
Mal viu ele, tão ocupado, o dono da casa, que a sua dona de casa, depois de tanto trabalhar, havia arrumado suas malas.
Ela, dona de casa, sai em silêncio (como sempre viveu) e deixa um bilhete: Eu me demito.

Foi viver sua própria vida. Foi ser dona de si.

Um comentário:

Nathália. disse...

P.s.: A palavra "dispensa", grifada assim, com "i", é proposital.
O objetivo é tornar dúbio o sentido por conta do som.
Em primeiro momento se pensaria na palavra "despensa", com "e", que diz respeito ao local de armazenamento dos mantimentos da casa.
Contudo, ao fim do texto se entende que ao escrever "dispensa", com "i", queria, na verdade, deixar claro que a mulher tem, sim, a chave de si mesma.
A mulher é um ser livre, e deve se ver como tal. Autônoma, viva.

Achei necessário explicar a colocação, não por conta dos leitores habituais, que sei que entenderiam o jogo de palavras, mas por conta dos eventuais machistas que bisbilhotam. Espero que compreendam.