O teu egoísmo terá de encontrar outro canto, que não o meu.
Dei-me conta ontem de que um diálogo no qual apenas um fala e o outro escuta é, na verdade, um monólogo, e que amizades não são construídas monologamente, nem monossilabicamente. E a tudo que te contava a resposta era em três letras (SIM, NÃO, UHM).
Cansei-me.
Cansei-me, ainda mais, de chamar-te para qualquer coisa, de requerer tua companhia e receber pseudo perguntas frouxas (Não, sabe como é, eu não sei, tá meio tarde, tá nublado, tá sol, tá calor, assim... mas se você realmente quiser eu vou, tá?) e dar respostas seguras (Não, tá tudo bem, deixa pra lá. Vá para casa e depois a gente conversa), e nunca conversar.
Tenho consciência da máxima maquiaveliana de que o homem é um ser egoísta, preocupado apenas com a maximização de seus interesses pessoais. Todavia, ontem tive consciência de que não apenas preocupa-se um homem com interesses pessoais, como ignora os interesses alheios.
Eu digo que desejo conversar e tua única preocupação é arrumar alguma companhia não platônica. Para que queres uma companhia real se, caso a tenha, a ignorará?
Desculpe pela pergunta, mas não tem como evitá-la.
Se o mundo se resume a ti e aos seus interesses próprios, para que o outro?
Para compartilhar da sua vida?
E quem compartilhará algo contigo?
Ninguém.
Porque enquanto luta pela justiça social esquece-se de que o ser humano é um ser sociável, e esta sociabilidade é recíproca, via de mão dupla.
E, a reacionária que diz-me ser, mudará, mesmo assim, o status quo.
Uma vez, em uma aula de História do Mundo Contemporâneo, um professor fez a seguinte piada: O problema dos grandes esquerdistas, socialistas e revolucionários é que eles pouco conhecem da terra. Preocupam-se tanto em fugir da Direita, mas tanto, que não atentam para o fato de que o planeta é redondo e, se muito fugirem para a esquerda, acabarão dando a volta e chegando à direita.
E viva a desrevolução.
Adeus, "Manolito".
Atenciosamente,
Mafalda
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