quarta-feira, 30 de junho de 2010

Caro você, [2]

Optei por escrever mais esta carta como um modo de desabafar o que já quase não sinto.
Venho pensando no que andava sentindo, e principalmente no que evitava sentir.
Mas dei-me conta de que tentar não sentir é a pior coisa que tem. Não porque faça mal, mas porque faz com que o sentimento tome maiores proporções do que tomaria em uma circunstância normal.
O problema das borboletas, por exemplo. Caso pudesse sentir seja lá o que fosse, aposto que as borboletas ficariam tranquilas dentro de mim, saberiam que as coisas estariam rumando para a melhor resolução.
Contudo, por evitar traçar os caminhos todos, elas se sublevaram (e o resto não importa).
Desse modo, depois de muito sentir e menos pensar, dei-me conta de que você não foi assim tão importante.
Quer dizer, foi importante em um primeiro momento, apenas por existir (como já havia dito na carta anterior), mas depois dele passou a ser... dispensável.
É claro que não me agrada dispensar-te, ou melhor, não fico feliz em dispensar-me de ti, mas confesso: sobreviverei, e bem.
E falo isso porque sobrevivi tantas vezes diante de tantas coisas muito, mas muito piores (que não vêm ao caso). Mas, como sei que você é curioso, contarei alguma coisa... afoguei-me num mar, duas vezes, por dois diferentes, que não você. E enquanto me afogava as borboletas iam morrendo, morrendo de fato, e senti-las morrer dentro de mim foi a prova de que aqueles dois, que não você, não eram mais essenciais.
Você me fez sentir aquelas borboletas odiosamente deliciosas.
Obrigada.
Todavia, agora temo que possa tentar matar essas borboletas.
Desculpe, mas não posso deixar que o faça. São minhas, fazem parte de mim, sou delas.
Admito que são suas também, mas só um tantinho, um tantinho de nada. Até porque, você não as criou conscientemente.
Aprendi em Direito das Obrigações que "a coisa perece para o dono".
E, se sou "dona" das borboletas eu não sei, mas sou dona de mim, e devo defender meus interesses.
Por tudo isso, desculpe-me desde já se for embora e não voltar. Não é nada pessoal, apenas fui cuidar das borboletas, criar-lhes um jardim.
Se desejar, posso colocar seu nome no Jardim.
Você, o jardim.
Mas o jardim não estará em você.
Espero que entenda.
Grata desde já pela atenção.

Cordialmente,
Eu.

http://letras.terra.com.br/regina-spektor/1111476/

2 comentários:

Libertas disse...

Carta didática. O destinatário é complicado?

Nathália. disse...

Libertas - o destinatário era meio lento...