segunda-feira, 15 de junho de 2009

Quando Beta se foi

Beta nunca teve muita afeição por mim, quando chegava perto ele se afastava, como em repúdio. Nunca bem compreendi.
Amava-o.
Importava-me com ele, sentia dores no peito ao vê-lo ali, naquele espaço tão pequeno, com uma vida tão vazia, onde não poderia exercer seus instintos primitivos, não poderia conhecer novos cantos, novas águas, não conviveria com outros de sua espécie.
E, apesar de nossa relação não ser de muito contato, me afeiçoei ao Beta como não havia feito com um ser vivo sensível desde Tieta.
Sempre que podia, visitava-o, e ficava a olhá-lo e alimentá-lo, contendo meus impulsos de dar-lhe a liberdade merecida.
Via seus olhos grandes a olhar-me, sentia-me menos culpada. Como é triste isso, quando não temos coragem de fazer o que é certo, tentamos diminuir nossa culpa, tentamos nos convencer de que estamos fazendo o máximo na medida do possível.
Beta, ao longo do tempo, acabou por atrair a atenção de todos.
Beta, ao longo do tempo, acabou por atrair meu coração.
Hoje, ao fazer uma das minhas visitas a ele, vi que não se mexia, vi que estava de cabeça para baixo, sem cor, vi que não mais estava ali.
Beta se foi, e levou uma parte de mim com ele.
Beta ficou, nas minhas memórias, nas minhas convicções.
Beta era um peixe, da espécie beta, que vivia em um aquário, na mesa de centro de minha sala, que eu alimentava diariamente, e limpava-lhe o aquário igualmente, e fitava-o, e amava-o, apesar dele não ter sabido.
Beta era de uma cor vermelha, de uma vivacidade e beleza únicas, de uma fragilidade que me comovia.
E o que mais me incomoda é que, apesar de muito sentir pela sua perda, ainda não consegui derramar lágrima.
Quando Beta se foi, senti.
Quando Beta se foi, não chorei.

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