segunda-feira, 4 de abril de 2011

O náufrago

Construíram, ao longo de quatro anos, um navio. E, depois de quatro anos de construção, ele foi jogado ao mar. Sem piedade, sem bote salva-vida, sem nem ao menos uma bóia.
O navio cansou daquelas viagens naquelas águas e foi procurar outros mares, fazer uma nova tripulação?
E ele ficou na água, nos dias de tormenta, no mar aberto.
Perdido e sozinho.
E, depois de dois meses à deriva, ele se encontrou com um barquinho simples, de madeira boa e resistente, que o puxou para dentro. Aquele barquinho frágil sabia de suas limitações, desejava superá-las e, ao ter aquele homem em si, desejou superar as coisas ao seu lado.
As águas pareciam calmas, e o passageiro parecia estar conhecendo o barquinho. Parecia que iriam até a costa, encontrar um cais, no qual pudessem trabalhar, pouco a pouco, a pequena embarcação, transfomando-a em um navio seguro.
Mas ele, o passageiro, agora membro da tripulação, impaciente que estava, queria que o barquinho fosse navio, navio grande e imponente como aquele que construiu e navegou por quatro anos.
Só não se dava conta de que aquele navio grande havia expelido-o de seu interior sem pensar nele. Ele, um dos arquitetos, foi jogado ao mar.
O barquinho sentiu o descontentamento do tripulande, e tentou ser navio. Mas era impossível construir navio em águas de tormenta.
Era preciso acalmar o mar, e era preciso que o passageiro embarcasse de vez na relação/embarcação, virando permanente tripulante.
Mas, nesse instante, as águas se agitaram.
Era o navio que voltava revoltado, mexia as águas.
O navio não aceitava que o passageiro estivesse vivo e bem em uma outra embarcação.
O passageiro era dele, só dele, e não poderia embarcar em outro lugar. Deveria estar à deriva, chorando, perdido no mar.
Aproximava-se o navio do barquinho, com toda a sua imponência.
O barquinho, amedrontado, pediu ajuda ao seu mais novo tripulante.
E o tripulante dizia:
- Rema, rema! - mas pouco fazia.
O barquinho queria ser navio, se impor.
Mas, apesar de boa madeira e de bom projeto, não podia, sozinho, remar contra o navio e se reformar ao mesmo tempo.
O navio precisava se afastar. Pediu o barquinho ao tripulante que, com sua autoridade de (ex) arquiteto, ordenasse ao navio uma mudança de rumo.
O tripulante foi ao navio, voltou ao barquinho, e o navio lá continuou.
O barquinho chorou, o tripulante negou, mas ele desejava um navio. Pra já, sem demora, sem espera.
O tripulante voltou a ser passageiro.
O barquinho, triste, pediu à ele:
- Afasta o navio, vamos sair dessas águas, vamos ao cais, construiremos juntos o nosso navio.
Não vejo perspectivas - disse ele, encantado com o navio que o havia expulsado e agora oferecia uma bóia.
Pulou do barquinho, se jogou ao mar, segurou a bóia?
O barquinho, perdido, respeitou a decisão do seu tripulante, foi em direção às águas mais calmas e lá fez algumas das reformas que queria.
O barquinho virou pequeno navio. Mas aquele pequeno navio ainda levava lembranças do seu tripulante. O pequeno navio ainda desejava se tornar grande com o tripulante.
O pequeno barquinho havia enxergado ali, naquele tripulante, a oportunidade de, juntos, viajarem o mundo, parando em portos de águas calmas, escrevendo uma história.
Aquele grande navio, que tinha jogado a bóia, era imenso, sem dúvida, e o seu capitão, soberbo, disse:
- Nem Deus pode afundar este navio!
Era, sem dúvida, potente. Era chamado TITANIC.

E o tripulante perdido? Para onde iria, o que faria?

Não sabia, mas o novo pequeno navio continuava a navegar.

2 comentários:

Ana Carolina Aguiar disse...

Adorei.

Nathália. disse...

Fico realmente feliz de conseguir, com minha tristeza, provocar bons sentimentos :-)