Ler ao som de Fidelity, de Regina Spektor
Muito se discute sobre o aborto, sobre privar um ser vivo de uma vida da qual ele naturalmente já faria parte, mas é esquecido que diariamente abortamos pessoas de nossas vidas, e somos igualmente abortadas por elas.
Muito se discute sobre o aborto, sobre privar um ser vivo de uma vida da qual ele naturalmente já faria parte, mas é esquecido que diariamente abortamos pessoas de nossas vidas, e somos igualmente abortadas por elas.
Você passa anos ao lado de alguém, compartilhando conquistas e perdas com essa pessoa, vendo o desenvolvimento dela, o amadurecimento, enfim, compartilhando de pequenos bons e maus momentos.
E então, de repente, você é abortado. Você é privado de um convívio, de uma vida, não podendo mais sequer acompanhar de longe aquele ser vivo com o qual você, pelo tempo que fosse, esteve de algum modo ligado.
É como se você cuidasse por tanto tempo e a pessoa não te reconhecesse. Você fez parte de um ciclo praticamente inteiro, e foi expulsa perto do fim do ciclo que ajudou a construir, como uma intrusa.
Como se não tivesse direito a ver aquela vida amadurecer.
Você doa tempo, carinho, cuidado, atenção. Doa afeto e recebe uma porta fechada, isso se recebe, isso se a porta não desaparece, o que significa que nem te reconhece mais.
E de repente você tem que conviver com o vazio, com as lembranças de ter sido parte de algo que te exclui.
Não vou mentir, dói. Eu não esperava um "obrigado", um agradecimento, apenas não esperava o silêncio. Achava que estávamos prontos para dizer "acabou". Não estávamos.
Eu sempre detestei o egoísmo, mas neste momento eu me vejo flertando com ele, como uma questão de sobrevivência.
Às vezes é preciso ter um mínimo de amor próprio.
Dos abortos todos que existem, o pior é o aborto daquele que já nasceu.

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