sábado, 2 de janeiro de 2010

Amor de contos de fada


Queria amá-lo. Queria amá-lo não para sonhar que ele a amava também, que era recíproco.
Queria amá-lo para sofrer de amor.
Queria amá-lo para ter como justificar o tempo que passava pensando como seria se o amasse.
Pois se o amasse faria sentido pensar nele, sonhar com ele, esperar por ele.
Se ela o amasse, faria sentido que o imaginasse junto à ela.
Se ela o amasse, haveria razão para se ver sofrendo por ele em seus pensamentos.
Se o amasse seria normal que se imaginasse imaginando como seria se ele a amasse também.
Tudo seria mais simples se ela o amasse e ele...
Ele não importava.
O ator principal virara coadjuvante em seus pensamentos. Em seus pensamentos ela era a atriz principal, a mocinha.
E devaneava sobre seus sentimentos, sobre a reciprocidade de seus sentimentos.
Se ela o amasse haveria sentimentos que pudessem ser devaneados.
Mas ela não o amava.
A ausência de amor impedia a esperança de um amor que lhe completasse.
Não sofrer por amor não era prisão, seria, na verdade, uma libertação. Seria palpável, sensível.
Se ela o amasse poderia sofrer.
Mas, como dito antes, não havia amor da parte dela, não havia motivos para estar triste.
Provavelmente não havia igualmente amor da parte dele. Ela nem ao menos poderia sofrer culpando-se por ser amada e não poder corresponder.
Ela não o amava.
Ele não a amava.
E assim ele vivia.
E assim ela vivia.
Ela vivia angustiada por não ter o direito de chorar, por não ter motivo para se angustiar.
Ele vivia ocupado vivendo seu não amor, tranquilo sem quereres.
Ela queria amá-lo.
Ele nada queria.
Ela queria, ele não.
Ela não queria, ele também não.
Talvez ela não se amasse.
Talvez ele também não amasse.
Se ela o amasse seria um conto de fadas platônico.
Ela não o amava, não existia amor de contos de fadas.
Existiam sonhos de um não amor de duas estações.

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