quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Francisco

Não era o andar de antes, desengonçado, com pernas que confundiam-se aos passos; era firme, e as pernas eram mais firmes igualmente.
O cabelo era outro, não havia resquícios dos cortes adolescentes. Era básico, na moda, não era igual.
A nuca não era mais fresca, avermelhada, não mais a pele arrepiava-se ao vento.
A postura mudara, ereto os ombros rígidos, como se a timidez tivesse abandonado aquele espírito.
Não vestia o uniforme usual, mas calça jeans e camiseta; confundia-se com os outros passantes.
As mãos cresceram, capazes de apertar; perdera o enlaço das mãos que sonhava sobre as minhas.
E ao perceber que o seguia com olhos de perto, remexeu no cabelo, como se fizesse graça, a fim de manter a minha atenção. Não me reconhecera.
Acelerou o andar na dúvida se eu o acompanharia.
Mas meu interesse perdeu-se à mexida no cabelo, à decisão presunçosa.
Deixei-o ir.
Perplexa a observar, agora de longe, vendo perder-se de vista, o menino que outrora fora meu príncipe encantado; minhas lágrimas e sorrisos nos tempos de escola.
Agora era apenas um transeunte nas ruas corridas de um bairro qualquer.

27 de agosto de 2008

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